AMAMENTANDO UMA CRIANÇA MAIOR

Não faltam “opiniões” sobre a amamentação de uma criança maior. “Se ele tem idade suficiente para pedir para mamar, ele está muito velho para isto.” “Se ele tem dentes, é a maneira da natureza dizer que é hora de parar”. Não raramente: “Amamentar uma criança de 1 ano? Isso é nojento.” Até mesmo os profissionais de saúde entram em ação. Aqui, “palavras de sabedoria” de um psiquiatra infantil francês, conforme citado no Le Soir, um jornal belga de língua francesa, em 29 de novembro de 2003: “Não se compartilha o seio: estender a amamentação após 7 meses é, sem dúvida, um abuso sexual”.

Como as pessoas que dizem essas coisas desenvolvem ideias tão estranhas? Amamentar até a primeira infância fora a norma em grande parte do mundo até muito recentemente.

Aqui estão algumas citações sobre a amamentação de uma criança maior do que um bebê de várias obras da literatura:

“Na véspera do Lammas, à noite, ela terá quatorze anos;
Ela deve se casar: eu me lembro bem.
Desde o terremoto agora onze anos;
E ela foi desmamada, eu nunca esquecerei disso,
De todos os dias do ano, naquele dia;”

William Shakespeare. Romeu e Julieta. Ato I, Cena 3 (Julieta tinha 3 anos quando foi desmamada). Sim, e veja como ela ficou! 🙂

“E você tem filhos?”
“Eu tive quatro; tenho dois vivos – um menino e uma menina. Eu a desmamei em seu último carnaval.”
“Qual a idade dela?”
“Ora, dois anos de idade.”
“Por que você a amamentou por tanto tempo?”
“É nosso costume; por três jejuns…”

Leo Tolstoy. Ana Karenina

“Raramente se ouvia um choramingo de uma das quatro crianças, todas as quais, desde o bebê de seis meses até Amanda de seis anos, foram alimentados com o seio de Louise.
“Nunca mais, nunca no futuro que amanheceu mais tarde, estivemos tão saciados. Fomos amamentados e amamentados. Sempre a superabundância estava fluindo para dentro de nós. Nunca qualquer questão de suficiência é suficiente ou não vamos exagerar. Nunca nos deram uma chupeta e nos disseram para sermos razoáveis. Era sempre hora de mamar.
“Deve haver razões pelas quais nós, homens, temos tanto quadris nos seios como se tivéssemos sido desmamados muito cedo.”

Günter Grass. The Flounder

Allaiter un bambinFoto 1: Uma criança maior amamentando em um trem. Perfeitamente normal.

Un bambin allaité en publicFoto 2: Uma criança sendo amamentada em um espaço público com muitas pessoas por perto, sem ficarem constrangidas.

Por que isso importa para aqueles que dizem coisas como “Se ele tem idade para pedir…”?

Porquê importa? Apesar do que as pessoas possam dizer, me acusando de envergonhar mães que não amamentam (eu não), assediar mães em shopping para amamentar seus bebês (eu não), dizendo às nossas pacientes no Centro Internacional de Amamentação que fórmula é veneno (eu não), por que as pessoas não podem simplesmente calar a boca sobre uma mãe que amamenta uma criança maior? Podem dizer, claro, se for para dizer a ela que o que ela está fazendo é lindo.

Aqui estão meus pensamentos sobre por quê isso é importante para tantas pessoas.

Em primeiro lugar, porque em nossa sociedade os seios são vistos apenas como brinquedos sexuais. E, claro, o seio tem um propósito erótico. Mas a boca também tem; devemos cobrir nossas bocas quando estivermos em público porque ela tem um propósito erótico? Aceitamos que a boca serve para comer e que também tem um lado erótico. Mas parece que não podemos aceitar que o seio não seja apenas sexual.

Como resultado, aceitamos, a contragosto, que um bebê amamente, mas uma criança maior? Isso é um pouco perturbador demais. É como fazer sexo com crianças. É daí que vêm os comentários do primeiro parágrafo, a repulsa pela ideia de fazer sexo com crianças. O detalhe é que amamentar uma criança não é fazer sexo com ela.

Freud ajudou a propagar a ideia de que amamentar uma criança de alguma forma não é certo. Ele acreditava que as crianças passam por vários estágios, começando de 0 a 1 ano com a fase oral, seguida da fase anal, que dura poucos anos, e se segue uma fase latente…. Ele acreditava, sem nenhuma prova real, que você não pode estar em dois estágios diferentes ao mesmo tempo, e é um sinal de “atraso” se uma criança ainda dá sinais de estar na fase oral após um ano. Em outras palavras, ainda amamentando. Os psiquiatras estão cientes disso porque estudam Freud, mas o resto de nós se esqueceu dessa declaração de Freud ao mesmo tempo que acreditamos nela.

Bem, não há problema em amamentar depois de um ano, podemos amamentar até que a criança peça pelo peito, podemos até mesmo discutir o quanto a criança adora, e não é nojento. A única parte nojenta disso são as reações de muitas pessoas que consideram nojento amamentar.

Muitos médicos (e nutricionistas) acreditam que não há nada de importante no leite materno após um ano (alguns dizem 6 meses)

Se não há nada no leite materno depois de um ano, então qual é o sentido de amamentar? Aqui é onde a mãe é culpada. “Ela está fazendo isso apenas para si mesma”, por manter seu filho no seio e, surpreendentemente, procurando por algum tipo de prazer sexual.

O fato é que amamentar é muito mais do que leite materno. É uma relação física e emocional, íntima e próxima, entre duas pessoas que se amam.

Apesar de haver muitas provas de que o leite materno ainda contém proteínas, gorduras, carboidratos, fatores imunológicos e fatores de crescimento após 1 ano, após 3 e até mais, muitos médicos e nutricionistas persistem na ideia de que o leite materno não contém nada importante após um certo tempo do nascimento.

Na verdade, depois de um ano, o leite materno ainda contém os ácidos graxos poliinsaturados de cadeia longa que os fabricantes de fórmulas infantis gostam de dizer que inventaram. Os anticorpos e vários outros fatores imunológicos que ajudam a resistir à infecção ainda estão lá, alguns em maior quantidade do que durante os primeiros meses após o nascimento. Os vários fatores de crescimento (fatores que estimulam o desenvolvimento de vários sistemas orgânicos) ainda estão presentes no leite materno. Os fatores de crescimento presentes no leite materno auxiliam na maturação do cérebro, do intestino e do sistema imunológico, bem como de outros sistemas. O leite materno sempre contém células-tronco , alfa-lactalbumina que, quando exposta ao ácido estomacal, se transforma em HAMLET (alfa-lactalbumina humana que se torna letal para as células tumorais ) e muito mais.

 

Como os médicos concluem que não há nada de importante no leite materno depois de um ano? Só posso supor, mas acho que um palpite tem uma base sólida de fato.

Não é raro que alguns bebês mais velhos passem longos períodos mamando e ainda assim não ganhem peso. Isso ocorre, geralmente, porque a mãe teve uma diminuição significativa no fornecimento de leite. O bebê mama no peito, porém não está recebendo muito leite. A maioria dos profissionais de saúde não sabe avaliar o bebê no peito e saber se ele está recebendo leite ou não. Eles acreditam que se o bebê está com pegando e fazendo movimentos de sucção, ele deve estar recebendo leite. Assim, presumem que não há nada de importante no leite materno após um ano ou qualquer tempo arbitrário após o nascimento. Não é verdade. No primeiro vídeo, o bebê está recebendo muito leite. Dá para perceber por causa da pausa no queixo enquanto ele abre a boca ao máximo. Cada sucção é abrir-pausar-fechar. Essa pausa diz “Acabei de ficar com a boca cheia de leite”. Quanto mais longa a pausa, mais leite o bebê recebia.

VIDEO 1: Neste segundo vídeo, embora o bebê esteja pegando e sugando, ele quase não recebe leite. Não há pausa no queixo.

 

VIDEO 2: Em alguns casos, o bebê passa muito tempo ao peito, não está recebendo leite suficiente, não ganha peso ou talvez até perde peso, e ainda assim, se recusa a comer. Como pode? Como pode um bebê que obviamente não está recebendo leite suficiente para ganhar peso ou até mesmo perdendo peso, recusar comida? Pessoas famintas, inclusive bebês, engolem comida.

Eu acredito que o suprimento de leite da mãe diminue a ponto desses bebês estarem, de fato, em uma dieta de baixa caloria. Não é que não haja nada importante no leite materno; é que o bebê não está recebendo leite materno, pelo menos não o suficiente. Então, eles desenvolvem cetose, uma situação que várias dietas da moda tentam induzir. Não coma muito que você desenvolve cetonas no sangue e não sente fome.

Por que os bebês ficam na mama por longos períodos se estão cetóticos? Porque amamentar é mais do que nutrientes e calorias. A amamentação dá ao bebê segurança, conforto e, sim, amor. Então, eles ficam no peito e sugam e sugam e não recebem muito na forma de nutrientes, mas sim de conforto.

A maioria dos pediatras dirá à mãe que ela deve parar de amamentar e o bebê começará a comer. Na verdade, isso não é necessariamente verdade. Sim, alguns irão, mas não todos, e é perigoso simplesmente parar de amamentar, porque alguns bebês podem ficar desidratados. Podem ser hospitalizados para alimentação nasogástrica e, então, começarão a comer alimentos também, uma vez que obtenham muitas calorias. Mais uma prova de que o leite materno não tem nada de importante? NÃO!

O hospital não é necessariamente um lugar seguro para bebês / crianças desnutridas. Essa abordagem acaba com a amamentação e esse é um preço significativo a pagar. Não é preciso internar a criança nem parar de amamentar.

O que pode ser feito é aumentar a ingestão de leite materno do bebê. Quando obtêm mais leite da mama, a cetose diminui até desaparecer, eles começam a sentir fome e passam a comer alimentos e continuam a amamentar também. Esta é uma solução melhor. Frequentemente usamos domperidona nesta situação e funciona. O suprimento de leite materno aumenta, o bebê recebe mais leite, a cetose passa e o bebê começa a se alimentar e continua a mamar.

É importante ressaltar que mesmo que tudo esteja bem com a amamentação, os médicos frequentemente orientam as mães a interromper a amamentação porque “não há mais benefícios para o bebê”. Isso, é claro, diz muito sobre a compreensão do médico sobre amamentação em geral, mas também sobre amamentação de crianças maiores.
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Declaração da Health Canada sobre a alimentação do bebê de 6 a 24 meses.

Declaração da Academia Americana de Pediatria sobre amamentação.

Recomendações da OMS sobre a duração da amamentação.

E algumas citações da Organização Mundial de Saúde:

“O leite materno também é uma fonte importante de energia e nutrientes em crianças de 6 a 23 meses.”

“O leite materno também é uma fonte crítica de energia e nutrientes durante as doenças.”

“Longas durações de amamentação também contribuem para a saúde e o bem-estar das mães: reduz o risco de câncer de ovário e de mama e ajuda a espaçar a gravidez”

Need breastfeeding help? Make an appointment with the International Breastfeeding Centre.
Precisa de ajuda para amamentar? Marque uma consulta com o Centro Internacional de Amamentação.

Copyright for the English original: Jack Newman, MD, FRCPC, Andrea Polokova, 2017, 2018, 2020

Copyright for the Portuguese translation: Jack Newman, MD, FRCPC, 2020

Translation to the Portuguese: Maria Luisa Silva Quintino (Brazil)

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